quinta-feira, 10 de julho de 2014

Hora do barulho

Interno hoje este Blog, que há muito vem capengando em suas novidades, na casa de repouso intitulada "banco de dados virtual". Essas páginas represetam boa parte daquilo que escrevi dos 16, quando achava que sonetos salvavam vidas, aos 19 anos. Não sou moça de apego fácil, mas muito menos de desapego tranquilo, então fica aí o panorama de meu percurso.  Obrigada aos que acompanharam minhas postagens, aos fiés, aos amigos, aos curioses e aos desocupados. E como tudo o que morre deve renascer, apresento-vos: O banheiro da sereia ainda com cheirinho de desinfetante.





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Esfinge

Começo de um filme noir
Para ver se ligo:

Finjo leseira
Finjo cupido
Boca vermelha
E coração suado

Noite que caiu sem avisar
Podia ser setembro, mas é janeiro
E finjo que escrevo
O que pensei
E nunca disse
Por medo de que escutasse

Mulher que enterra a menina
Num tête-à-tête ao espelho
Estou francesa e sans merci

Finjo mansidão
E trago à janela
Enquanto me observam
Finjo e sou






(a tal da reescrita.)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Esfinge

Começo num filme noir
Para ver se não ligo

Finjo leseira
Finjo cupido
Grilos que cantam
E coração sua

Noite que caiu sem avisar
Podia ser setembro, mas é janeiro
E finjo que escrevo
O que pensei
E nunca disse
Por medo de que escutasse

Finjo mansidão
E trago à janela
Enquanto me observam
Para que finja existir.

À porta

Corro para que não veja
Que corre em mim a espera
Do seu toque bruto
Em meu pescoço
Para que não mova
E observe
Seus olhos buscarem
Nos meus uma dor
Que sinta você
Tocar meu rosto
Rápido e forte
E minha pele soar
Suas mãos
Tapando-me o grito.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

La vue n'est pas rose

Se eu te contei
Do aperto que me fez assim
Falei do que doía
Do vazio que não fenecia
Do receio que há em mim

Se te falei
Dos prazeres e das delícias
Indas, vindas e já findas,
Minhas paixões de menina,
Foi para ter suas carícias

Se te disse que gostei
De te ter aqui uns instantes
Está bem, não estranhe
Meu amor, não sou ruim

Só me deixe bem aqui
Não me leve contigo
A vista não é rosa
Minha vida, indecorosa

Meu coração não se demora
E logo quer partir.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Medo


Your Sylvia Suicide Doll

Você não me escuta, você não me escuta.
Qualquer palavra é abafada
Dentre esse chacoalhar contínuo
Medo, lembranças. Presente.
Esse retrato não é o meu.

Nenhum movimento a ser feito.
O passado é uma criação da mente
Que adquire vida própria. Imortal.
Mesmo que ousasse encarar-me,
Ler-me te seria impossível.

Eu não estou aqui.
Ici. Là. Here. There.
A angústia não tem língua,
Ela é universal,
Já a Saudade, herança lusitana.

O pavor de cumprir o destino,
Pânico de saber-se no caminho
Para o fim de um hábito.
Não mais lágrimas pelo impossível.
Agora não há mais culpado.

Terror de saber-se infeliz,
Incapaz de mudar isso,
Com medo de seguir em frente.
Libertar-se do conforto,
desconfortável.

Uma palavra, uma mudança. Aja.
Nós deveríamos nos reencontrar.
Em outra vida? Talvez.
Essa pode já estar gasta.
Essa deixou de me ser cara.

Eu posso dizer que serei a mesma
Pois eu nunca sou nada,
Apenas a ressonância de um todo
Sufocante, como um forno
Que draga aos poucos a vida.

É preciso que se mate,
Estou aguardando que você faça isso.
Espero não desfalecer antes
Que seja tarde demais
Para mim, ou para você.

Nossos olhos irão se encontrar no infinito
Então você se reconhecerá neles,
E você os fechará
Para todo o sempre.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Feição

"Somebody's done for"
Sylvia Plath




O peito se contrai
Ao olhar felino,
Preocupado, ele--
Calado se faz
Presente

As paredes brancas
Como o linho,
O vestido renegado
É a porta
Para outro caminho

Onde a felicidade
Reina no espelho
E a bondade
Se faz cotidiana
E torpe

Mas os pés
Estão satisfeitos
Não mais andar
Querer
Ou tropeçar
Está acabado--

No olhar do gato
Fatigado e curioso
Um conforto
Para a noite
Etérea

Permanecemos.
Estirados no poço
Lodo
Da cabeça
Aos pés.

O quão perfeita me sinto
Ninguém poderia imaginar

terça-feira, 6 de novembro de 2012

É a tua ausência


É a tua ausência
a falta de uma mãe
morta no parto
para qu'eu vivesse

É a tua ausência
algo sem cor ou forma,
vindo não sei de onde,
cheirando a um lar

É o Sol de Ícaro,
derretendo-lhe o sonho,
a queda do destino,
a morte que o fez mito

É a tua ausência
a falta de um filho,
arrancado das entranhas,
para nunca mais.

É a fisgada no membro,
que não está mais lá.
A falta de um estranho.
O desfalecer da fé.

É essa tua ausência
A escassez de tudo.
A falta de um futuro,
Afogando o presente.

É não mais que um sopro no coração de um morto.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Retrato desbotado


"- Às vezes, as coisas mais reais só acontecem na imaginação, Óscar – disse ela. - A gente só se lembra do que nunca aconteceu."
Carlos Ruiz Zafón 

A música ainda toca-nos,
Lembrando o toque de veludo
Do prelúdio de uma eternidade,
Daquilo que nunca aconteceu

Em nossos reinados caídos
Vemos o ir e vir de cicatrizes
Paridas em suor e carne viva
Num corpo risonho em desatino

Numa tarde, num dia sem nome,
De expectativa escassa, mas viva,
No aconchego de um tempo indeciso,
A hora vem lembrar-me que isso é vida.

Essa coisa tão frágil e valiosa,
Na minha pequenez de ser humano,
Desejosa de uma imortalidade
Que cesse a agonia sussurrante

Sento e assisto o vacilar do peito,
Como um cardíaco aguarda o seu desfecho
Temendo que o fim, seja nada mais
E nada menos, do que o fim.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A curiosidade matou o gato


"-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora."



   (Insira um vocativo aqui),

   Eu não sei o que te dizer, mas preciso dizer. Não é que não exista o que dizer, é que não sei se posso dizer. Não, não é questão de poder. Poder a gente sempre pode, eu sempre posso. A questão é que não sei se devo. Pior, não sei se você ainda quer saber o que eu tenho a dizer. Talvez tenha cansado de esperar uma resposta... Está bem, não vou cometer o pleonasmo da falsa modéstia. Eu sei que você ainda espera, mesmo que seja só para saber, mesmo que seja só para possuir a peça que falta para encerrar o quebra cabeça que, ao invés do marco da união, será apenas mais um objeto guardado num fundo de armário, esquecido.(Acho que caí de novo na pseudo humildade, é sempre assim quando te escrevo - quando te vivo - sempre colocando em prova o seu amor).
   Ah, convenhamos, se ainda fosse como antes... Como no início, sabe? Quando não tínhamos tanto passado. Quando você me amava, me idolatrava, me precisava, me respirava. Você se lembra disso? A gente era feliz, não era? Tinha muitas lágrimas, é claro - principalmente minhas; mas a gente era feliz. Você era a minha criança, levada e carente. Eu a sua lótus. Sua mãe. Seu pai. Seu lar. Todas as inversões em nós faziam sentido. Eramos o incesto perfeito. A perversão de fel. Duas almas esquecendo-se do mundo, simbióticas, doentias.
   Mas não é como antes. Nada mais é como antes. Eu tinha que quebrar o ciclo, entende? Por favor, entenda. Você sempre foi a única pessoa no mundo capaz de entender. Eu tive de fazer isso. Eu precisava respirar e eu aposto que você também. Precisava respirar outros perfumes. E aposto que você precisava sussurrar outros nomes, para saber como soariam, que fosse. Talvez isso tenha sido mais um perversão minha. Mas eu fiz isso por NÓS. Não para podermos ficar juntas ou para nos odiarmos. Por nós. Apenas, por nós. Sem um objetivo direto, redenção ou declínio, tanto faz. Fiz apenas porque eu tinha que dar um basta na minha mania de fazer tudo por nós (no sentido de no lugar de, porque acho que pela gente sempre foi você). E com essa última atitude por nós, eu dei. Você vê?
   Agora você vive, você sorri. Acredito que agora você até deva conseguir olhar bem fundo nos meus olhos e dizer que não é mais meu brinquedo, que não será mais treinada para a protagonista do meu romance. 
   No entanto, me diga uma coisa, você é feliz? Faz tempo que quero te perguntar, é que ando sentindo umas inquietações. É que eu senti que tinha alguém caindo ao meu lado, no meu sonho lúcido dessa noite. Era você? Se era, por que não vi seu rosto? Será que eu o esqueci? Não, eu não quero esquecê-lo! Por favor, me deixa lembrar do seu sorriso - olha só, eu estou pedindo por favor, estou demonstrando "publicamente" a minha carência em detrimento do meu ogulho. Pois é, acho que mudei muito. E você? Mudou? Sim, claro, "o rio nunca é o mesmo". Mas mudou como? Me diz de você? Tem tanta coisa de você que quero saber. Quais são seus planos? Como têm caminhado seus dias? E as meninas, alguma te fez feliz? Espero que tenha feito, de coração. Porém não só não espero, como não quero e, acho até que não tolero, que tenham te feito mais feliz do que eu fiz. Por que eu fiz, não foi? Mesmo com toda a dor que eu te dei. Mesmo tendo aberto os seus olhos para a escuridão. Mesmo tendo cometido todos os meus pecados, todos os seus crimes... Eu te dei algo bom, não foi? Não foi? Me responde!
   Acho que é por isso que te escrevo, para ter essas respostas. Te escrevo porque ouvi uma canção que dizia "até mesmo o amor cansou de sofrer" e me lembrei de você. Você cansou, não é? Eu sei, eu quis tanto te ver sofrer. Eu sempre gostei de ver o brilho das suas lágrimas, a intensidade do seu desespero, a sua necessidade de rasgar a minha pele e se enterrar em mim para sempre. Se enterrar comigo. Isso sim era amor de verdade. Será que ainda dá tempo? Será que ainda há um tempo?
   Bom, essa deve ser a segunda razão pela qual te escrevo. Eu acordei essa madrugada com um sussurro em meu ouvido, um sussurro que dizia que o tempo está para chegar, se a gente souber esperar. O problema, ou solução, é que a gente tem que estar pronto. Pronto não só para reconhecer, pronto para viver. Você acha que a gente chega lá? Ou acha que já nos perdemos para sempre? Eu não sei, sabe? Sim, você sabe. Você sabe como eu sou: a decidida que de nada sabe e de tudo pretende saber.
   Bom, é isso. O clichê é verdadeiro: o que for para acontecer, acontece.
   Chega de afobação.

Posso terminar com um até mais?
(Meu adeus anda manjado)

Passar bem


"Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem"

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Crepuscular



"Voici le soir charmant, ami du criminel;
Il vient comme un cumplice, à pas le loup, le ciel"

Um miado desesperado.
Onde está o amor?
Você não se entregou?
Eu ouvi você implorando...
Por favor,
por favor...

Os gatos estão com fome
Você está com fome
Esquecidos
Paredes e um trauma
Um abismo profundo
Um café
Nada além

Você era promissora
Eles acreditavam em você,
Caçadora compulsiva,
Sua personagem era divina
"Garotinha selvagem,
Gatinha instável..."
Uma mulher maluca

Eles estão atrás de você
Só mais uma noite vulgar
Só mais uma mulher vulgar
Vamos,
Saia daí
Garota pirada,
Você vai se arriscar. De novo.

Baudelaire na estante,
Suspiros francesas
Gatos curiosos
Saciados

Mãe


Corta esse cordão
Que se me deixar ir,
Volto

Se ficar,
Enforco-me

Deixe-me-parir.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Eu te escreveria um poema


Eu te escreveria só um poema
Mas não há tema que nos baste,
Amor tornou-se fugídio,
Paixão é cinismo,
Gostar vulgar
E cisma nada

Eu te escreveria um só poema
Um soneto em versos decassílabos
Não é a habilidade que me falta,
Mas a inspiração não teve morada
Na nossa transpiração esquálida
Pela lasciva madrugada

Eu só te escreveria um poema
Se não fosse tão desajeitada,
Misteriosa e descabelada,
Bonita mas descuidada,
Estragada de vida,
De consciência
Enfurecida

Só eu te escreveria um poema
Mas prefiro uns versos soltos,
Compondo uma melodia barata,
Não é que você não o mereça,
É só que a informalidade
Tem bem a nossa cara.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Fragmentos de desencontros



O dia correu em sua languidez continua e, sem que alguém ao menos tivesse a chance de impedir, a noite anunciou-se no céu com escassas nuvens. Contudo nada disso foi visto por ela, imobilizada enquanto o silêncio daquela casa lhe despendia a graça de se esquecer tão completamente de si que nem mesmo a solidão tinha espaço para doer, apesar de não deixar de latejar em cada quina de cada parede de cada cômodo vazio de lembranças.
Não sabia a quanto tempo estava ali, podiam ser meses, anos, ou mesmo apenas horas. Não sabia e não importava, o tempo é insignificante quando mergulhamos no oceano de nosas almas. De vez em quando mudava de posição, às vezes vagava do sofá para cama e vice-versa, ou mudava o nada em que seus olhos se fixariam. Seu corpo movia-se como um entidade separada de sua mente que não estava ali, mas em lugar nenhum. O lugar nenhum que havia em seu âmago, um lugar que ainda que só alcançável por ela permanecia intangível a cada passo que dava mar a dentro, impelindo-a a um desligamento tão vital quanto nocivo.
Devia ter andado para a sacada no ápice da independência de seu corpo, pois foi a chuva tocando as suas bochechas e escorrendo como lágrimas que a trouxe de volta aos desencontros de sua vida...
Pensou em sua existência, no que que havia conquistado, no que havia deixado para trás, em cada pessoa que havia passado por sua vida e deixado uma marca e até naquelas que tinha apagado com a borracha do tempo, em cada promessa que não pode cumprir, cada que não quis cumprir, em cada mentira que contou, e, principalmente, em cada sentimento que rasgou-lhe o peito num momento para no seguinte ser completamente esquecido. De todos esses pensamentos o que havia prevalecido era a interrogação de porque sentia aquele aperto tão forte em seu peito, como uma morte constante de si que nunca se completa. Se fosse pessoa de paixões desesperadas, ou de nunca deixar o passado no passado, diria que era isso, porém sabia ser algo mais, algo mais até do que o medo da solidão. O que sentia estava mais para o medo de não ter se tornado tudo o que pretendia se tornar. O medo de ter se esquecido de quem é, ter entregado-se a uma existência senão degenarativa, ao menos estagnada - o que com o passar do tempo dá no mesmo.
Olhou para o relógio e disse para si mesma em voz alta, como que para trazer-se de volta de todo esse memento mori:
- Está quase na hora, Mariana, vá tomar um banho.


Não era segredo que sempre a amaria, mas esforçava-se tanto para disfarçar que a maioria de seus convivas acreditava. As exceções eram uns poucos atrevidos, esses a quem damos o nome de amigos, que podiam até fingir crer mas jamais engoliam as máscaras que vestia. Era assim que continuava a sua vida, bem como um dia após o outro, porém não havia um dia sequer em que não pensasse no sorriso dela, naquelas palavras que tinham o poder de criar e destruir mundos. Não havia um só dia em que deixasse de adocicar o pesadelo onde ela o havia enterrado. A razão pela qual insistia nisso era, e nao tinha dúvidas quanto a isso, a dor deliciosa que sentia ao pensar naquele rosto, uma agonia que dizia valer a pena viver, mais, dizia que havia realmente vivido e que enquanto não esquecesse aquele amor, a vida ainda palpitaria na espera alucinada de seu coração.
O caso, bom ou ruim, é que sempre havia o momento em que se lembrava que talvez ela não voltasse. Às vezes parecia sentir que ela se esquecia de tudo e ele se sentia sozinho no mundo de novo, abandonado a sua sorte, a sua solidão, onde até o amor fraternal lhe fora negado. Mas ainda assim, não queria esquecê-la. Ainda que ela se esquecesse, não queria se esquecer, por crer que os amores - assim como qualquer outra coisa no mundo - permanecem vivos enquanto alguém acredita neles. O que ainda não havia entendido, é que um amor no qual só uma pessoa acredita não alcança mais do que uma existência vegetativa. Até para o amor ter vida é uma coisa e viver é outra.
Ainda lutaria, isso era inquestionável, mas agora sabia que devia reservar um tempo para entender. A bem da verdade, precisava de um tempo para si mesmo, pois como aprendeu com a menina de olhos felinos que a gente não possui aquilo que não entende, resolveu possuir-se antes de poder possuir qualquer outra coisa. Até os eternos apaixonados às vezes se cansam das mentiras. O problema é que aquelas últimas palavras dela não lhe abandonavam a mente e mais embaçavam que esclareciam:

- Não, não eramos eu e você. Era você, o seu amor por mim, a sua imagem deusificada de mim e eu. Eu estava a parte, como você nunca enxergou isso? Como você pode ter sido tão cego esse tempo todo? Eu sempre fui extremamente só do seu lado, mesmo com todo o seu amor incondicional. Eu sempre tinha que dar um jeito de manter a imagem de mim que você criou... Você sabe que nunca suportei não ser boa o suficiente, então eu me esforçava para ser tudo o que via em mim, para me manter a garota perfeita, ainda que não te amasse. Entende o quanto foi solitário para mim? Honestamente, se é para estar só prefiro uma solidão em que eu não tenho que cuidar de ninguém.


Desceu as escadas correndo, quando chegou ao último degrau consultou o relógio. Estava na hora, sabia que se pegasse o próximo ônibus esbarraria com ele. Não sabia a razão de querer vê-lo e nem se deu tempo para questionar-se, estava tentando aplicar em sua vida um pouco do que acabará de aprender: algumas coisas não precisam de uma razão de ser e nem devem tê-la,  assim como a existência encontra uma finalidade em si mesma, uma ato não precisa ser justificado além da própria vontade que o impulsiona.

(cont.)

Das escolhas (um poema em prosa)


        A entrega ao amor nunca foi oferta que pude aceitar, pois para a entrega é necessário crença e essa outra teve uma vida muito curto em minha existência. A racionalidade - suposta dádiva dos seres humanos - é ao mesmo passo a cruz que nos torna ilógicos, a medida que pensamos deixamos de existir dentro dos padrões estabelecidos, as possibilidades se estendem, e com elas a desesperada busca pelo acerto. Para tornar a vida possível eu, e mais tantos, dissequei o acerto, desmembrei-o, desqualifiquei-o, até que o erro se torna-se acerto e vice-versa. Mas a busca ainda é infinda, há tantos erros acertáveis e acertos erráveis, enquanto a escolha permacece tiquetaqueando em algum lugar de nossa mente.
       Se a realidade é mesmo ilusão como clamam os pensantes, a vida pode se resumir a este quarto mudo, assim como para outrem a uma mesa de bar, um passeio noturno pela praia, um beijo do ser amado, uma volta com o cachorro, um ônibus lotado. A vida é o agora, muitos já disseram isso porém não deixa de possuir sua verdade, pois o ontem são lembranças e as lembranças são como as coisas que inventamos, só existem em nossa mente. E o amanhã? Bom, o amanhã depende das mil escolhas que temos, ele existe em cada uma delas, contudo compartilha com elas a sua falta de realidade.
      De minha parte, considero-me não mais que um rio que por estas letras corre, enquanto a chuva faz-me transbordar. Um rio que recebe novas águas todos os dias, águas que não sabem para onde vão e morrem antes de entender que tudo não passa de um ciclo. Não há lamentos, não há sequer dor, quando a trajetória passa a ser uma finalidade em si mesma. As lágrimas que enchem-me os olhos perdem seu sentido antes de tocar a pele, vestem-se apenas com a beleza nua de sua sensibilidade e passam a existir como um bem que lava-me a face.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vencidos

"Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu poeta, o beijo que procuras!"
Florbela Espanca


A distância, que antes era só um capricho,
Hoje foi concretizada em algo real,
Corroendo o coração, o tal nicho
De uma frieza outrora dita sem igual.

Meus olhos se perderam nessa viagem,
Ou talvez os tenha esquecido na cidade
Para que cuidem-o, até que a friagem
Leve-o embora de minha realidade.

Peço-te, apenas, não deixes a saudade
No lugar de todo esse poderia-ter-sido,
Pois o que no meu peito ainda é vontade,
No teu é a perpétua volúpia de um vencido.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Breve empolgação coloquial


      A minha pressa passou, a sua só chega nas madrugadas ébrias. Mas, tenha calma. Tenha calma que a gente se esbarra. Seja num bar, seja no meio da rua, seja na pista, seja numa sala, a gente se esbarra. Só prometa não correr, que eu prometo não aprontar. Só prometa não temer, que eu prometo esperar. Só prometa me dizer, que eu prometo escutar. Só prometa que não será em vão que aí prometo até não mais dissimular e, quiça, permanecer um tempo onde está. É só você parar de se preocupar, deixar de hesitar.
E se acontecer, meu bem... Dessa vez, talvez, eu me comporte. Dessa vez, por minha vez, pode ser que eu me importe.
      Quem sabe aí a gente não terá certeza? Ao menos você certeza de que não há nada que vale a pena em mim e eu certeza de que não posso te consertar. Vai saber, não é?
Vai saber, dessa vez eu não possa até voltar a parecer a romântica que nunca fui... Te escrevo um poema. Te entrego uma carta, dessas para guardar de lembrança. Sorrio sem graça quando te ver, um sorriso que parecerá só seu. Arrumo cabelo, faço charme. Te acompanho com olhar. Acho que essa música é para mim, canto aquela perto de você para te encantar. Mudo o caminho só para deixar você me olhar. Até me arrumo, mas não demais para você não se gabar. Fumo com jeito de mulher fatal, mas te olho com cara de menina pronta para amar. Te levo do céu ao inferno, sem aviso. Te seduzo, e quem sabe até não te conquisto? 
É só você entender que certeza a gente nunca tem. Sei que é difícil, aprendi isso faz pouco. Quer dizer, não aprendi mas já sei repetir e fingir que acredito. Com o tempo aplico na minha vida, já estou tentando. Por que você não faz o mesmo? Vamos lá, não é difícil é só não ter medo. Porque se machucar, a gente sempre se machuca. Seja pela gente ou pelos outros, a gente se machuca. Quem não gosta da ardência de uma boa ferida, não é mesmo? Quem não gosta de ter sangue para estancar? Talvez até exista quem, mas não você, não é? E nem eu, e nem eu. Então, por que não me deixa te machucar? Prometo que não sairei sem um arranhão. Se quer saber, com sorte você pode até conseguir mais. Pode até me dar aquela coisa que faz a gente sangrar com um sorriso no rosto cujo nome não me atrevo a pronunciar. Não prometo, não garanto, mas acho que aceito.
E o momento há de chegar. E da próxima vez que nos perguntarmos a nós mesmos onde está a nossa mente, é bem possível que a resposta se reflita nos olhos que, finalmente, terão se deixado alcançar uma só sintonia, um só pensamento, não excludente, mas complementar.
Bom, e nunca é demais frisar: A gente se esbarra.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O ser e a farsa

O ser, escolhendo parecer, abandona a essência,
Preferindo viver em inevitável inconstância
A tornar-se o que já é apenas para si mesmo,
Pois teme perder-se nessa busca a esmo...

Enquanto a imprecisão da existência alucinada
Palpita nos degraus que compõem nossa caminhada,
Os paleativos para esse nosso temor do incerto
Vêm logo atrás para que ele não seja descoberto.

E vivemos fingindo que somos o que jamais seriamos,
Esquecendo que o que fingimos jamais encenariamos
Se desvendásemos a normalidade sem qualquer futuro
Dessa farsa barata donde só a esterelidade é fruto.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Paranóia

O céu noturno me encara
Estéril -
Sem a lua para emprestar-lhe vida,
Pede-me por amor.
Eu devolvo a exigência.

Toda a noite imobilizada,
Sinto olhares distantes
Carentes de meu sangue.
Ignoro-os,
Absorta em mim.

Um susto.
Um cactus inexistente me espetou.
A dor não é maior,
Do que o sobressalto.
Alguém observa.

Os velhos olhos de esfinge brilham,
Refletindo-me.
Qual a resposta que procuram?
Talvez um dia os deixe entrar,
Talvez um dia os mostre meu âmago.

O silêncio é quebrado.
Vozes escassas se propagam.
Passos confundem-se.
Quais seriam os seus anseios?
Cantem para mim seus medos.

O mundo interrompe-os,
Aborrecido por minha distância,
Implora-me por atenção.
Machuca-lhe só importar-me
O que dele transcrevo.

O céu ainda está lá,
Solitário em sua imensidão,
Inquere-me sobre meus oxímoros.
Os olhos mostram-se ansiosos
Para me devorar.

Respondo-os apenas com o silêncio,
Já não sei mais daquilo que sei.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

À minha negra lua

Oh, minha menina, negra lua,
Sempre serás minha preferida,
Não por minha mão ser mais tua,
Por carregar nos olhos a dor da vida...

A angústia, tão bem conhecida...
Por nossos corpos perdidos da luz,
Nós, que até nos olhos, temos a desdita
Estampada como nossa velha cruz.

É que, desde o início da mocidade, a alegria
Nos escapou, tal como uma astuta raposa
Da armadilha, mas sobrevivemos a perfídia...

Sobrevivemos para viver uma vida amável,
Ainda que a angústia seja a nossa cruel esposa
Que nos impede de esquecer esse mal incurável...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Olhos abertos

Os olhos curiosos observam da janela,
Quase engolindo, em sua inquietação,
Pessoas normais todas iguais
Mas iguais numa unicidade,
Sem igual.

Os olhos sorriem e a boca imita,
O mesmo sorriso dos transeuntes,
Um sorriso vindo de um sério riso,
Um canto que não se sabe deles,
Ou dos olhos.

Quem os olhos possui se compraz,
Se ri e, de súbito, quase se conforta
Tal como nunca antes.
Por mania, procura o nome,
A identidade.

Talvez seja isso o que chamam:
Felicidade. Algo inédito.
Intenso como as lágimas.
Não, ela não parece errada,
E por que seria?

Ah!... A dor ensina, o riso distrai.
Mas como é que se aprende,
Quando se passa a só a dor conhecer?
Não se aprende,
Empobrece-se.

Então, em desafio a tendência,
Não mais inovadora,
Os olhos decidiram serem felizes
Só por hoje
Só por hoje

A boca cantou com eles.



quarta-feira, 8 de junho de 2011

Jamais

O medo queima em seu peito,
Retornou como um filho a mãe.
Sufocar já não é tão bom--
Agora que perdeu o controle.

Seu passatempo: A Morte.
Nunca tão próximo,
Embriaga-me na espera.
Ainda se apavora?

Patética psicótica--
Já enterrada no seu lixo depressivo.
Apesar da cara de sonsa,
A vítima não se parece com você.

Você está se afogando,
E o deleite jamais lhe escapa.
Dessa vez não haverá cicatrizes,
Não haverá volta.

O gélido mar a engole,
A sigo como seu fantasma.
À nossa vasta estância,
Quimera faminta.

Unidas por correntes difusas,
Pelas ondas nos elevamos,
Sufocando o nosso medo,
Saudamos o eterno.

Talvez, descansaremos, mas jamais em paz. Jamais.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Acerto de contas

Diana,


                Chegou o momento, não foi?... Eu pude sentir ela atravessando seu corpo como eu o atravessei um dia. Ela te comeu com a força que você gosta? Ela te fez gozar como eu sempre fiz? Ela é tão pervertida quanto eu? Ela é? Ela foi boa o suficiente? Ela é boa como eu nunca fui? Ou você clamou pelo meu toque? Você ainda clama, não é, pela minha língua na sua boceta? Você gozou, mas não foi como sempre foi comigo. Você a devorou. Você tentou deixar nela a sua dor. O gemido dela te excita como o meu sempre fez? Acho o gosto dela melhor do que o meu? Eu sei que não. Não venha me chamar de inadequada, sempre fui inadequada. Inadequada o suficiente para ser mulher de te mandar esta carta. E eu sei... Você sempre adorou essa minha inadequação. Amou-me porque sou livre não é mesmo? Uma poética frase a se dizer... Talvez até seja verdadeira como o amor que me jurou.
                Eu sei, ma chèrie, você me amará até que a sua respiração cesse. Mas ela te deixou sem ar, não foi? Espero que esteja se sentindo vingada agora. A vingança por todos os anos que me amou enquanto eu te usava. Enquanto eu te sugava. Enquanto eu te enganava. Não sem amor, pois o meu amor é engano. O meu amor é aquele que rima com a dor. Algo que você nunca entendeu. O meu amor é a mentira que invento para tornar minha palavra real. Real como você. Eu quase consegui ser real como você, se você não tivesse buscado tanto ser falsa como eu. Você se sujou em mim, sem acusações, se não os olhos infantis em eterno julgamento. Os seus olhos que nunca me enxergaram, mas sempre se sentiram como tal. Sempre fizeram com que eu me sentisse mal por não poder ser o que eles viam. Eram eles que me faziam tão boa? Pois então, imagino que eles também foram penetrados profundamente.
                Concluído o crime, ou a libertação, "Toma um fósforo, acende teu cigarro/O beijo amigo é a véspera do escarro". Você sempre adorou fumar após um bom orgasmo... Mas aposto que o cigarro pareceu mais amargo sem o meu doce em sua boca. Acaso a fumaça em frente sua face a lembrou que me perdeu? Acho que não mais acordarei com mensagens apaixonadas-desesperadas. O nó cego foi desfeito. Você se foi de onde prometeu me esperar. E eu quero que você fique bem. Quero o caralho! Eu espero que você sofra muito. Espero que cada parte do se corpo lateje. Que vomite sangue e sufoque com ele. Chega a ser uma doce cena a se imaginar... Você, tão branca, manchada de vermelho... Sufocando sozinha. Sim, sozinha. A sua amiga de hoje escarrará na sua boca ao amanhecer. A mão que te afagou te apredejará. A ninguém mais causará pena a tua chaga. E, então, chegará a sua vez de apedrejar. A sua vez de escarrar. A sua vez de ser como eu. Você finalmente terá conseguido.
                E, como eu, você cairá. Cairá até que atinja o chão de cabeça. E então, cairá de novo. E de novo. E de novo. E de novo. Até que você entenderá o que significa vida, o que significa amor, o que significa este nome maldito que te afundou. Este nome que você amava tanto dizer. Rirá tanto quando lembrar-se disso. Não entenderá o que sentia. Pensará como foi tola. Pensará que era outra sentindo aquilo. Não você. As suas cicatrizes te impedirão de retornar àquele sentimento puro. Puro não. Nada em você jamais foi puro. Você nunca foi pura. Você sempre foi corrupta em sua imaturidade calculada. Eu sim, era pura. Eu sim, sou pura. Deleitei-me tão dissimuladamente na sujeira que ela se tornou pureza. Meu sorriso nunca escondeu minha malícia e esteve sempre aí minha inocência.
                Não se espante com minhas palavras, você pode ser boba ainda, mas já não é burra. Você as entenderá. E a intensidade da ferida que se abrirá em sua pele será a intensidade do seu entendimento. Não se espante ou pergunte como é que sei. Eu sei. Eu simplesmente sei. Você sempre soube do feitiço que fiz com seu sangue, então não há razão para surpresas. Também não se pergunte o que é que vou fazer. Eu vou apenas viver como tenho vívido. Não pergunte como. Apenas direi que um dia após o outro, você pode imaginar o resto. Mas só, é claro, se não for muito ofensivo para você imaginar a "sua garota" com outra. A sua garota fodendo outra. A sua garota com um pênis na boca. A sua garota morrendo em outros. A sua garota se vingando do mundo que nunca foi real o suficiente. A sua garota se vingando de si mesma por não ter amado você mais do que se amou. A sua garota buscando histórias em lençóis novos todos os dias, apenas para não ter que assumir que a vida dela não passa de um mundo embaçado que desaparecerá antes de ter forma.
                É melhor eu acabar isto logo, a vodka já está se despedindo também... Mas não fique convencida, você não partiu o meu coração. Você não teria esse poder. Já o pedaço do seu que roubei mantenho comigo, está podre mas ainda serve de gancho... Apesar de não mais tentar me puxar para cima... Eu sei, Eu sei, fui eu quem partiu... Fui eu a eternamente insatisfeita. Fui eu que queimei meu coração numa ânsia de ser inalcançável. Eu sempre quis ser inalcançável, por isso até me regozijei quando disse que me via assim. Agora realmente o sou... Inalcançável até por mim.

Adeus, para valer dessa vez.


Jéssica

domingo, 1 de maio de 2011

Ato solitário

Minhas veias assassinam palavras,
Os desdos me vestem:
Sede.

Meu corpo reage ao novo odor,
Um arrepia se espalha:
Desprezo.

Minha boca trêmula clama,
O calor dilacera:
Terror.

Minhas pernas sedem calmamente,
O coração se esvazia:
Prazer.

Está tudo congelado agora.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Du désir

Ah!... Que desespero terreno me toma!
Meu coração, em palpitação, se alucina.
Seguirei eu, enfim, minha cara sina?...
A resposta estampa-se feito hematoma.

O caminho que meu corpo deseja sei bem,
Porém finjo desconhecê-lo... Sim, Minto!...
Como se não soubesse o que deveras sinto!
E pretendo ser incapaz de entender mais além...

De olhos fechados, precipito-me no abismo...
Enquanto a coragem ainda não me escapa,
Sigo minha trajetória, imposta desde o batismo...

Saúdo o mundo com a excitação pela nova etapa,
Anunciando-se ante meus olhos de conhecido fascismo,
E me deixo ir... Onde até a mais nobre vida se esfarrapa.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O fim do círculo

Da manhã ficou só bela paisagem,
Daquelas que despertam saudade
E dúvidas sobre o que foi realidade,
A simetria cabe só no espaço da miragem.

A tarde foi nublada em seu início,
Talhada em melancolia agradável,
Mas a tempestade fez-se inevitável,
Não poderia haver paz sem jamais suplício.

Com o crepúsculo veio a calmaria,
O sol parecia ainda tão apaixonado,
Sangrando feliz por se sentir amado,
No amor, até os feridos deleitam-se em alegria.

Agora, a noite se anuncia no horizonte,
Minguante, a lua encena seu adeus.
A escuridão domina os olhos seus,
Deixo-me apagar, perdida a sua luz como fonte.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Protège-moi

       O dia se anunciou como todos os outros. Com a brisa gostosa da manhã, o sol acalentador mas fraco e o cheiro de algo novo. Anunciou-se com o mesmo sarcasmo de todos os outros, que nos faz pensar que existe alguma esperança onde essa palavra já até perdeu o significado. Mariana sentiu apenas a vontade de ajeitar-se na cama e voltar para o seu sono. O colchão era macio, o frescor permitia o uso do edredom. Era uma manhã perfeita para permanecer dormindo, encenando uma paz que não existe.
    Quando a volta para aquele sono quieto já se enunciava, numa pequena distração sua cabeça foi para aquele lugar. Aquele lugar onde não há sono, não há calmaria. O medo cotidiano a assaltou. Mais um dia se iniciava e, com ele, a volta da pungente consciência do que era, do que se tornou, dos seus crimes e limitações. A consciência, sua morte de cada dia.
   Preferiu levantar-se a permanecer deitada num espaço que não mais a cabia. Talvez um banho fosse um melhor começo de dia. Sentou-se em sua cama, de frente para o grande espelho que havia em seu quarto. Encarou-se. Aquela face que a olhava parecia muito mais velha que ela mesma. Mais velha e mais maliciosa. Não que se sentisse ingênua, mas talvez manipulada por si mesma. Era como se quando agia, por mais que achasse-se sabendo de si, fosse apenas algo que pairava nela mesma. Ela não era ela mas sabia dela. Não era ela e nem a imagem do espelho, mas outra sempre inalcançável por si. Não pode deixar de sorrir aquele seu sorriso de quem é feliz por ser inatingível. A moça do espelho parecia, então, ainda mais maliciosa, tramando planos sem fuga para a outra que a olhava. Os planos auto destrutivos de todo dia.
   Seus lábios desenharam um sussurro,  que não soube se veio da outra que a olhava ou de si mesma:
 - Proteja-me do que desejo.
   Já havia ouvido essa frase em uma canção, mas não atentado a ela. Agora, saida de sua boca tão descompromissadamente, parecia ter tanto sentido. Um sentido que se advinhava entre a esperança de um pressentimento e o amargo de uma recordação, e que logo escaparia sem deixar vestígios. Esse entendimento lhe devolveu o sorriso de antes, só que ainda mais intenso. Um sorriso que parecia tudo saber. Um sorriso que unia todas as faces dela num só gesto. Um ato que mais parecia um feitiço.
   Esfregou seu rosto e foi tirando suas roupas. Nua, olhou-se mais uma vez. Aquele corpo de mulher que muitos já haviam tocado. Aquele corpo que já seduzira mais pessoas do que se pode contar, mas que jamais fora seduzido. Essa sensação de imponência e distância a deu certa felicidade. Nunca fora vítima de ninguém, exceto de si mesma. Ao menos, não que se lembrasse. Ela fizera das migalhas dela outra. Outras. Vulneráveis apenas ao que são. Outras que mataram a primordial. Não por crueldade, por sobrevivência.
   Encaminhou-se para o banheiro. O banho sempre fora o único momento em que se sentia limpa. Limpa não só da sujeira física, mas dos outros, de si e de seus demônios. A água caindo em seu corpo jovem e de belas formas a passava uma sensação inexplicável. Era como apaixonar-se. Indo mais fundo, era uma forma de amor entre ela e aquele líquido cristalino que corria por seu corpo. O único toque por qual realmente ansiava. Os outros eram sempre sólidos de mais, ainda que prazerozos. A maleabilidade quase cruel do líquido, a sua inconstância e volubilidade combinavam muito mais com ela. O que não permanece sempre a encantou, provavelmente por isso escolhera viver dessa maneira.
   Gostaria de ficar ali para sempre, mas não podia. Ou melhor, podia porém não queria realmente. Afinal, ela era ela. Ela era elas e tinha que continuar sendo elas e as alimentando. Já bastava ter perdido a essência, não queria perder mais nada de si. Talvez, fosse esse o seu objetivo. Ter-se por completo. Não ter alguém. Ter-se. Ter tudo o que vivera e o que poderia viver. Todavia, jamais esquecendo de não se esquecer ou se embreagar em si. Era preciso ser. Ainda que muitas, era preciso. Sentia essa obrigação, não poderia viver não sendo. Ainda que nunca a mesma era preciso que fosse todas. Todas. Pois cada uma era ela. Cada uma. Talvez fosse isso, não perdera a essência, mas a fragmentara para que se personificasse. Devia ser esse o algo novo que o dia prometia, uma consciência um tanto indulgente. Toda ela era aquilo. Não tinha mais de ser a vilã ou a mocinha. Era as duas. Era o réu de seu próprio julgamento. Assassinava-se a cada dia apenas para continuar vivendo. Porque era essa morte, essa queda constante que a permitia manter-se junto a realidade. Vivia despedaçando a vida para que ela parecesse mais real. Não tinha razões, se não a ânsia de si mesma.
   Desligou o chuveiro e começou a enxugar-se lentamente. Sentiu a toalha macia passando por seu corpo molhado e eriçando seus pêlos, a preparando para mais um dia. Encaminhou-se para o seu quarto. Vestiu-se de forma insinuante, mas elegante e maquiou-se. Deliciava-se com a autonomia daquela ação. Era nada mais que ela mesma, preparando-se para si mesma. Ela mesma, impedindo-se de achar a saída do labirinto. Pois o labirinto ainda que seu calvário, era seu paraíso. E era ela que ia de encontro ao Minotauro. Ela que o procurava para morrer nela todas as noites. Era bem fácil e emocionante estar ali. Tudo o que precisava fazer era abrir as pernas, algo que sabia fazer muito bem.

terça-feira, 22 de março de 2011

Plenitude

Seu amor tornou-se um grito seco
De sua alma que outra realidade desconhece.
Um grito que se repete e se repete,
Como se sua saliva pudesse torná-lo real,
Ao menos tanto quanto pensamos ser.

O espelho reflete dois adultos mal formados,
Tentando unir-se ao vislumbre da solidão...
As bocas justificam o que no peito falta,
Mentiras sinceras para apaziguar uma dor verdadeira,
Promessas menos reais que um abraço.

O amor, sombra mascarada em palavras,
Tão egocêntrico quanto o homem que o sente,
Não foi feito para humanidade,
Ainda que ele exista, os homens, nós,
Apenas o sugamos até que seque.

Meu amor é o lago em que observa o seu reflexo,
Irreal se contraposto a pureza de tal palavra.
Não é como o amor que faz a terra girar em torno do Sol,
Mas como o amor que faz a Lua roubar-lhe a luz,
O brilho que a reflete em meu lago negro.

A lua, o meu corpo oco, no adeus se apagará,
No lago, a luz, os seus olhos, não mais serão refletidos.
Não mais.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um clichê original

Curado já está, o acreditado curavél,
Superado é, quando os lábios
Disserem que é algo superável,
Quando a dor cansa-se do palácio.

A profunda ferida, jamais infinita,
Lagarta feia, torna-se cicatriz.
A mente, torna-a em borboleta bonita
E dá a Dante de volta a sua Beatriz.

É a falta da vontade, o calvário;
A vontade da dor, o sofrimento;
Condenável só se, alienatário,
Encoraja o um como único elemento.

Não há dor que não tenha sido já sofrida,
Essa é a chave, se não há coisa não pensada:
São as palavras, de várias maneiras lidas,
Atrizes de uma originalidade ultrapassada.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Elementar

A lua me observa, minha face impetuosa é seu reflexo.
Desço do céu a terra, para depois retornar ao céu.
Traço o caminho da redenção ao fogo eterno,
Faço-me temida e necessária para o mundo.

A terra me absorve, mas acaba por me deixar ir.
Firo-a como a saudade fere aos amantes.
Em minhas poças a frágil vida se afoga,
Até que regresse, ao chamado de meu pai.

Minha mãe, rainha da noite, guarda-me nas brumas.
Minhas irmãs, as amantes do vento, empurram-me
Em direção a desfalecente que chama meu nome,
Eterna carente de mim--

A terra, espera-me em sua auto suficiência ilusória,
Amo-a, por me amar e não poder me possuir.
Ela tenta acusar-me, mas seus lamúrios
São só sussurros por entre meus trovões.

Caio para que viva, elevo-me para que não morra.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ego

Um rio sou, profundo e ardiloso,
E um pássaro negro mas pomposo,
Sou um livro gasto jamais lido,
Um orador que não pode ser ouvido.

As minhas dores não são dores,
São espelhos de antigos tremores.
Lembram espinhos de rosas falsas,
Navegantes que abandonaram suas balsas.

Meu canto é senão um sonho,
Pobre garoto de semblante tristonho
Esperando a refeição que não vem,
Ou um dia ser olhado como alguém.

O meu amor, belo e sem fim,
Não deseja ninguém além de mim,
Assim como meu sonso coração
Dedica a mim essa e qualquer canção.

Domingo

Fevereiro brilha pela janela
Ecoando no cantar de pássaros,
Crianças ensaiam a vida,
Enquanto domingo é só mais um dia...

Nossa repiração é vagarosa,
O vírus da ansiedade muda corrói,
Não avistamos nem causa nem cura, para nós
Domingo é inquietação e nada--

Mas já fomos crianças e não sabíamos
O que a insatisfação significava.
Não sabíamos que a vida falta na morte,
Tanto quanto a morte falta na vida.

Crescidos, nosso domingo é feito de traumas.
É uma irremediável abstinência.
Não é a ressaca de sábado que o personifica,
É a ressaca da vida--

Apenas para os que têm tempo para os versos,
Pois quando falta tempo para reparar
Na dor da existência,
Domingo é senão um benção.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Chave

Sou pequena e sólida, posso ser bronze e vitoriana,
Ouro, se mais pomposa. Quando simples, a prata prefiro.
Cada um tem uma de mim, costumo passar segurança,
Mas só se um encaixe possuo - o vazio onde me acomodo.
Sem ele, consideram-me objeto talvez bonito, mas inútil.
Todos já me perderam uma vez, mas seus segredos
Continuam guardados. Atrocidades e carinhos,
Escondo por ofício. Faço de meu silêncio purgatório.

Frequentemente me movimento, já meu encaixe, muito pouco.
Ele sempre espera por mim, ansioso por poder abraçar-me
Deixa visível a falta que faço. Dou-lhe, pois, o que pede.
Dele preciso, mas apenas por utilidade. Sem ele ainda sou plena.
Amor e ódio sinto quando presa em suas entranhas.
Se, em sua rigidez interroga-me sobre minha saudade,
Respondo-o com um silêncio altivo dissimulado em afeto.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cartela

Sábado à noite não é para esperanças.
Você tenta e tenta deixar a dor no banheiro,
Mas a privada permanece vazia -
Tão vazia quanto a cartela de remédios no chão.

Um para dor de cabeça,
Dois para a febre,
Três para aguentar o quarto,
Se ao menos houvesse um.

Eu não temo o chão gelado,
Gosto de me contorcer nele sem poder respirar,
Já você – pobre epilética narcisista,
Não pode aguentar ser deixada para trás.

Você não vai morrer! Você não vai morrer!
Eu vou, no canto do quarto está a coisa negra.
Ela quer sua companhia, ela diz:
Minha menina, ria de sua desgraça.

Você, obediente, contorce-se em gargalhadas,
As minhas gargalhadas, as gargalhadas dela.
Você tenta voltar - ou fugir,
Eu tenho você agora. Ela tem você agora.

As lágrimas tomam lugar do riso,
O terror domina sua face -
Cuidado, minha psicótica,
Se você gritar muito alto eles poderão te ouvir.

Continue fazendo listras nos seus braços,
Elas os deixam mais belos,
Mas não deixe qualquer um as tocar, eles não merecem,
Assim como você não merece um último suspiro.

A sua desgraça, querida vadia,
O quarto vazio.
A minha,
Cair no três--

Espatifada no chão,
Eu não choro
Ou grito,
A coisa negra me toma.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dama Natimorta

Vive em mim o que na terra não vive,
No caminho submerso sobre as águas
De mãos dadas com a senhora do lago,
Ausculto os caminhos tortuosos
Das almas em constante naufrágio.

Canto cânticos de eras esquecidas,
Invoco guerreiros lutando por seus ideais,
Mortos com eles nas batalhas mascaradas,
E não esqueço das mudas donzelas solitárias
Esperando com sua loucura indecorosa.

Nas nove musas encontro inspiração
E com minha triste voz fora do tom
Esboço o que poderia ser nova canção,
Se não fosse o presente nada mais
Que um mau rascunho do passado.

Tenho razão em não ter razão em vida,
Desperdiço todo o dom que me foi dado
Em frases por muitos pouco quistas,
Posto que a maldição da consciência
Menos porcos do que se acha a possuem.

Evoco palavras impronunciáveis na morte
De uma hora, onde qualquer som é silêncio
Perto do grito das criaturas apavoradas
Pelas cicatrizes de minha pele maculada!
Clamo por um Deus sem rosto e sádico--

Minhas mãos amarro em castigo
Pela liberdade que dão e privam
Ao ser sedento por aquilo que não tem.
Volto-me para a senhora do lago,
Cadáver sorridente de dama imaculada--

E tudo morre no abismo de minhas pálpebras,
Para renascer num grito mudo e sem fim.
Sem fim.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Toujours

Ama-me como o passarinho cantando a manhã,
E como o gato a espreita pelo fim do ato.
Ama-me como intangível criatura pagã,
E como falsa cristã de moralismo barato.

Ama-me ao passo que mudo e transmuto,
Não precisa aumentar, contando que não acabe.
Ama-me mesmo sabendo que meu amor é produto,
E não mais, do amor que em ti me cabe.

Ama-me assim só por amar, sem a certeza
Se minto quando digo és tudo e não menos.
Ama-me sem importar-te com a aspereza
De minhas palavras com variados venenos.

E, se não puderes amar-me com a mesma intensidade
A cada respiração, hora, dia, orgasmo ou abraço...
Ama-me menos um pouco que sua vontade
Mas carregua-me em seu coração a cada passo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Motivo

Na sordidez de um quarto por fraca luz iluminado
Em meu leito almejo ser mais que essa carne triste,
Injuriada e insatisfeita que ainda apenas existe,
Mas pretende viver para que seu ser seja lembrado

Por através dos séculos, pelas almas de igual sina,
Carentes da vida apenas como um artístico retrato.
Almas que conhecem bem o seu papel no teatro,
Mas não sabem o que é que tanto as alucina...

Se puder para tais ser ao menos simples acalento,
Meus dias nessa terra, ainda que de frívola existência,
Serão justificados, e recompensadas com decência
Serão as gotas de meu sangue no papel sedento.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Da dor ao amor

Ver-te em sua máxima beleza é morrer,
Não na dor e desespero da morte,
Em sua eternidade mais valiosa que viver...
É, pois, falecer como desejada sorte!...

És tu minha própria tela irreal,
O que amo e repudio em ignorância
Por desejar e temer o que me é fatal,
Como uma criança temente na ânsia...

Tu figuras minha eterna paixão dualística
De ferir e curar em ciclo interminável...
O que, bem mais que nossa característica,

Já tornou-se nossa sina e nosso vício,
Elemento extasiante inexplicável...
De nós, almas errantes em instável ofício.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Última Ofélia

Sou tal como a perpétua, a desiludida Ofélia,
Com sua alma errante ainda clamando
Por qualquer verdade no mar de miséria
Do esquecido coração do príncipe vitoriano.

Componho, não só, a insana alma afogada
Sem ter a consciência de sua desgraça,
Cantando por sua curta vida malfadada
A encontrar num lago a sua única graça...

Afundada pelo amor, era o que pensava,
Mas os espertos crisântemos a revelaram
Que não era por ela que seu príncipe lutava.

Já afogada, foi então que padeceu de vez...
E nem as dores póstumas de seu príncipe salvaram
A bela amaldiçoada de sua última insensatez.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Engano


É quando sai que pela mesma porta
O meu desprezo entra e não se importa
Se pedi ou não para que chegasse
E que o inferno para mim trazesse...

É quando estou só ainda com seu cheiro
Que percebo que não sei se amo ou odeio.
Recordo, então, que tudo é apenas um teatro,
Uma peça que criei inspirada em seu retrato.

Por favor, não se ofenda com minhas palavras,
Não tenho culpa se minha unha escalavra
Sua pele ainda limpa, escolhendo por não ver
As mentiras vindas do meu ardiloso ser.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Transição Cotidiana

Letras embaralham-se no papel,
O peito incha gradativamente,
A boca é séria e sedenta por fel,
A respiração é fraca e insuficiente...

Seria fácil se outra pessoa fosse,
Mas acordara sendo o que era,
A mesma solitária ninfa agridoce
Oscilante entre ser fada ou fera.

A monotonia do dia a feria
A cobrando da postergada decisão,
Era sua escolha se ficaria ou iria,
Era seu o músculo em contusão.

Se decidia ficar, com medo de partir,
Sentia calma mas logo em seguida
O músculo contundido a fazia grunir,
Como se fosse uma donzela ferida.

Se decidia partir, com medo da dor,
Avistava logo a liberdade que sonhara
Mas em seu caminho havia um predador:
O rancor ao qual nunca abandonara.

O único remédio era deixar o veneno
Percorrer aos poucos o sangue e a mente,
Fazendo-a abandonar os princípios terrenos,
Tornando-a, aos outros, uma vadia imponente.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lembrando Sylvia e Ted e Assia

Independente de tudo,
Minha alma de poeta aplaude
O que com esforço gentilmente
Nos tornamos, ou o que, talvez,
Já eramos e apenas encarnamos.
Com toda a minha inata pretensão
Digo-nos, sorridente e arrogante,
Chamados Plath e Hughes,
Ou melhor, Sylvia e Ted...
Ouso tomar esta arriscada identidade,
Condenando-me a morrer
Sufocada na redoma de vidro.
Ouso, pois os fatos não mentem,
Nossa sorte foi a muito provada
Quando fomos presenteados com a inveja
De uma Assia Wevill, provavelmente piorada,
A quem a obra de Ted nunca seria dedicada.

Última frase


Não há inquietação mais deliciosa,
Nem prazer mais exuberante,
Nem aceitação mais relutante,
Nem morte mais maravilhosa...

Não, não há nada comparável
A última frase relutantemente lida,
Ao fim dessa emprestada vida
Feita de papel mas impalpável...

Só quem já sentiu sabe o prazer
De sentir-se dilacerar ao final,
Da existência na verdade imortal,
Do que nos mata e nos faz renascer.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Decepcionar é perder


   Permanecia só trancada naquele quarto amplo e claro de móveis escassos. A quanto tempo estava ali ninguém sabia. Ela mesma não sabia. Apenas permanecia ali. Permanecia onde era seguro. Em sua companhia tinha exemplares de seus autores preferidos. Tinha um piano. Aliás, tudo o que compunha o quarto era um piano e uma cama. Seus livros, demasiado organizados para quem não tem uma estante, tinham uma leve marca de poeira. Não os havia abandonado, queria pegá-los de novo, queria lê-los. E justamente por querer não fazia. Esta era uma das várias punições que havia se inflingido. Não que fosse pessoa de se culpar... Não era exemplo de boa educação. Não era exemplo de altruísmo. Não era pessoa tida como boa. Não era. Mas, um vez na vida, se culpou. A vez em que tudo o que não era a fez perder tudo o que era. O tudo que encontrara cedo em sua vida. O tudo que a completara. O tudo que amara. O tudo que a recompensara com amor ainda que lhe proporcionando infinda dor. O tudo grandioso ainda que doentio. O tudo que a entendera. O tudo que a despertara para a sua essência. O tudo que a feriu. O tudo que ela não viu que a feria para o seu bem. O tudo de quem quisera vingar-se. O tudo que ela decepcionou...
   Poucas pessoas são vivas o suficiente para sentir a dor de decepcionar alguém. Não um alguém qualquer, mas um alguém que se ama. Poucas pessoas entendem o quanto isso rasga a alma. Poucas pessoas, pois é preciso ter alma para que ela seja rasgada. Assim, com a alma que tivera mesmo quando não sabia que tinha, Vivian jazia inerte em sua cama. Massacrada pela decepção que se estendera a si mesma. Torturada pelos seus pensamentos. Perguntava-se onde o tudo havia ido. Tentava acreditar que o tudo não era tudo, só mais uma ilusão. Mas sabia que ser ilusão não mudaria nada. Não mudaria porque ainda assim era uma ilusão dela. Ainda assim tinha a forte lembrança daquele tudo dentro dela. E, ainda assim, perdera esse tudo que nunca tivera.
   Vivian não chorava, não se movia, não comia, não sorria. Seu olhar era vazio. Mas se alguém olhasse bem – ou talvez só se aquele outro alguém olhasse – veria uma chama de crescente desespero. Um desespero que a dominava por dentro. Um desespero feito de ódio. Um desespero feito de uma dor profunda. Um desespero feito de arrependimento. Um desespero feito de morte. Sim, morte. Tudo morrera e ainda morria. Tudo estava lá... Lá, bem longe, no vento, no céu, na água, na terra. O tudo estava enfim em tudo, menos nela. E ela deixava os postulados do tudo empoeirarem-se ao lado de sua cama, não os abandonando mas não se pensando digna deles.
   Todo o dia se torturava tentando lembrar como é que aconteceu...
   Ela sorria, tinha esse alguém ou sentia-se tendo. Um alguém cujo nome se sente indigna de pronunciar ou sequer pensar. Esse tal alguém a quem chamara de tudo. Um alguém encantado. Um alguém belo. Um alguém verdadeiro e mentiroso ao mesmo tempo. Um alguém genial. Um alguém forte em sua fraqueza. Um alguém que poderia sim ser tudo, e foi. Ela dizia mil palavras a esse alguém. Ela conquistara esse alguém com seu esforço e dedicação. Dava palavras bonitas sem considerar as expectativas que essas geram. Com o tempo, não sabia bem ou não queria saber bem porque, sentia-se vazia ainda que com tudo. Sentia-se vazia e queria cada vez mais esse alguém para si. Mas tinha raiva. Uma raiva crescente pois esse alguém achavasse capaz de tê-la e ela não queria ser possuída, apenas possuir. Sabia-se não passar de uma amante egoísta. Mas, quem é que passa disso? A raiva foi se manifestando cada vez mais intensa. Queria ferir o tudo que a feriu. Sentia-se diminuída pelo tudo sem ver que não era o tudo que a diminuía e sim ela que não o alcançava. Nessa hora de sua reflexão era o único momento que lágrimas lhe escapavam, pois percebia o que poderia ter sido e o que já era mas que havia perdido por orgulho...
   No caminho da flagelação ela se empenhou arduamente. Prometia-se nunca mais se sentir manipulada. Prometia-se nunca mais se sentir controlada. Prometia-se nunca mais se sentir subjugada. Mas nada disso passava, porque quem fazia isso não era o alguém e sim ela. E ela, na sua confusão, não parou com as palavras bonitas. Não parou com as palavras que já são promessas em si e, pior, não parou com as promessas validadas como tal. Só que essas promessas a faziam se sentir mais presa e quanto mais presa se sentia mais queria mostrar que era livre. Só que nunca foi muito boa na relação entre as ações e as palavras. Talvez devido a sua busca pela perfeição. Talvez devido ao seu orgulho. Talvez devido a sua impulsividade. Talvez devido a sua imaturidade... Simplesmente não alcançava o que essas coisas significavam. E, depois de anos convencendo o tudo a acreditar que ela era tudo também. Ela arruinou tudo, ela arruinou o tudo. Ela arruinou o tudo ao fazê-lo esperar dela mais do que era, ao fingir poder ser o que não podia. Arruinou da pior forma possível: decepcionando.
   Na verdade, não sabia que era capaz disso. Não sabia que era capaz de ferir profundamente o tudo. E, pensando agora que pensar é inútil, provavelmente o fez para ter a prova de amor que nunca teve. Para ter a prova de amor que no tudo parecia só dissimulação. Mas não, não valera a pena. Pois assim perdeu o tudo. Ou talvez tenha valido, porque ter tido o amor do tudo fazia com que sua vida tivesse valido. Mas será que ao não merecer o amor do tudo, ao não merecer o tudo, o tivera?
   Paralisava-se, então, com a lembrança da verdade. Com a lembrança daquele quarto cheio de fotografias em que o tudo enfiou uma faca em seu próprio ventre enquanto dizia sem orgulho que não fazia isso por ela, mas por si. Lembrava-se turvamente como se lembra de um pesadelo que ainda parece real quando nos desperta no meio da noite... Lembrava-se de seus gritos ensurdecedores, da chegada de seus pais, da faca sendo retirada da sua mão, da veia aberta no pulso, do hospital, de ter parado de falar, de seus ataques repentinos, de quando a trancaram lá. Lembrava-se, então, que estava fazendo-se ser esquecida por todos no momento que o tudo a esqueceu nesse mundo. Torcendo para que não viessem lhe obrigar a comer outra vez, já que a morte pelo vazio é a morte merecida aos que fazem de sua vida um vazio irremediável.

sábado, 13 de novembro de 2010

Contínuo ensaio

...E nela eu existo plena,
Ela clama por mim
Tanto com palavras sonâmbulas,
Quanto com olhares desesperados...
Ela anseia por minha carne trêmula
Aquecendo a sua pele alva,...
Ela precisa do meu toque
Para se sentir viva,...
Ela quer que eu a machuque
Para ela se sentir minha,...
E eu a toco e eu a mordo e eu a arranho,
Limpo minha mão em seu sangue,
E ela vive e ela anseia e ela precisa
E ela deseja, e ela clama e ela machuca...
E eu? Deixo que me machuque...
“Por favor! Quero em mim toda a dor!
Fira-me! Fira-me profundamente!
Dê-me dor, dê-me rancor, dê-me vida...
Vida minha que é tua que é minha!”
E ela sente raiva, raiva, raiva...
Raiva de mim que sua nunca serei sua!
E eu sinto raiva, raiva, raiva...
Raiva dela quando sem mim, sorri!
E agora... É a hora das palavras,
Das promessas que nunca seram cumpridas...
E eu minto sem saber se sinto o que minto
E ela acredita sabendo que duvida...
Ela promete, ela jura, ela chora,
Eu abraço, eu aquiesço, eu desejo,
Ela ama, ela odeia, ela se submete, ela se vinga,
Eu revido, eu brinco, eu finjo, eu amo,
Ela percebe, ela se irrita, ela se cala,
Eu imploro, eu me vingo, eu jogo,
Ela me recompensa, ela tropeça, ela percebe,
Eu me escondo, eu desprezo, eu caio,
Ela me pega, ela perdoa, ela me abraça
E eu prometo e eu juro e eu choro e eu dissimulo...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A minha redoma de vidro



"To the person in the bell jar, blank and stopped as a dead baby, the world itself is a bad dream."
Sylvia Plath

A redoma de vidro estilhaçado
Não oferece nenhuma proteção,
Apenas mantém o mundo afastado
Da morbidez do meu coração...

A minha redoma criei calmamente,
Talhei-a, por anos, bela e ofuscante,
Lembrando uma estrela cadente,
Porém ainda mais brilhante

A luz forte que dela emanava
Pretendia dominar a escuridão,
Mas ao passo em que me acomodava,
Dava mais espaço para a podridão

Ela era feita de vidro resistente,
Lembro-me de sua perfeição invejável,
Até o dia em que um grito estridente
Despertou o desespero interminável

A minha redoma parti em mil pedaços
Sedenta por sentir na pele o mundo,
Mas ainda estou em meio aos estilhaços
Desejando um corte fatal e profundo...